Nada dói tanto quanto a sensação de que você quase chegou lá. A sensação de que havia algo a mais ali.
Mas que de alguma forma nunca se concretiza.
Isso machuca.
E a dor nos cega um pouco.
Tudo começa com uma negação. A gente entra nesse ciclo de quase-amor dizendo que estamos ali pela diversão.
Porque o beijo é bom, porque o sexo é incrível e a conversa também. E ai você finge aceitar que as coisas não precisam se complicar.
Que é mais simples assim.
Esse é o erro.
Porque a gente fica querendo mais a cada vez.
E cria uma esperança que não existe.
Uma esperança de que podemos mostrar para o outro lado de que nós valemos o risco.
Mas esse reconhecimento nem sempre vem.
O quase-amor é o mais perigoso dos jogos. É o jogo que te deixa acordado a noite enquanto você pensa em tudo que poderia ter sido.
É o mais torturante “e se?”.
Que nunca acontece.
Mas que não te impede de sentir profundamente.
É por isso que dói.
Porque você percebe que o amor não é sozinho.
O amor precisa de duas pontas.
E naquele instante só existe uma.
Você está sozinho ali.
E a dor não diminuirá.
Mesmo que nós finalmente cheguemos a entender.
A entender que algumas coisas nunca chegam a acontecer.
Existem diversas formas de amor nesse mundo.
Mas nenhuma delas é tão dolorosa como o quase-amor.
Porque esse é o amor dos sonhos que nunca vai acontecer.
E que mesmo assim, não te impede de pensar em como tudo poderia ter sido diferente.
A última parte:
Depois da noite do primeiro beijo muito tempo se passou. E aí nós finalmente viramos um casal. Um casal de verdade.
Minha primeira experiência no amor foi incrível. No fim do ano letivo, eu a levei para o baile e a beijei no meio do ginásio enquanto dançávamos uma música lenta. Como uma cena de um filme adolescente clichê. Descobri que gostava dos clichês. Do clichê de estar apaixonado.
Também tivemos nossa primeira vez.
Tivemos nossa primeira briga.
E também a primeira reconciliação. Do lado dela virei um homem de verdade. Aprendi a lidar com sentimentos.
A aceitar as emoções da vida.
E houve um dia de verão em que estávamos sentados no jardim da sua casa. Ela olhava as estrelas.
Eu olhava ela.
E ai eu vi o quanto a sorte me sorriu.
Tudo que sempre quis estava diante de mim. A garota pela qual me apaixonei estava ali.
E o seu amor era meu.
Para muitas pessoas isso seria o final feliz. O momento em que se consegue tudo aquilo que se sonhou.
Mas eu nunca acreditei em finais felizes.
Ainda mais no amor.
A vida real sempre continua.
Depois de conquistar alguém que você ama, aquilo não é o final.
É só o começo.
Porque virão outros dias. Outros momentos.
Alguns tranquilo.
Outros difíceis.
E vai ser preciso muito comprometimento para fazer tudo dar certo. Você precisará estar disposto a lutar mesmo quando tudo parecer impossível de se resolver.
Esse é o verdadeiro, e contínuo, amor.
Porque não existe fórmula mágica nele.
Mas gosto de pensar que existe uma equação.
Onde duas pessoas que se entendem e se gostam, colocam sentimento e energia numa relação.
E essa equação só funciona quando você tem a pessoa certa ao seu lado.
Amor.
Entrega.
O momento certo.
E no fim, essa combinação entre duas pessoas que se entendem.
É assim que se chega lá.
Se você for sortudo o bastante, assim como eu, você verá que ela estava bem diante dos seus olhos.
E a verdade é que na vida a gente nunca tem certeza de muita coisa. E eu não sei de verdade se finais felizes existem ou não.
Mas olhando para ela, eu entendi.
Aquilo era tudo que importava.
E se aquilo era um final feliz, eu não poderia pedir por mais.
9ª Parte:
Os olhos azuis me encaravam com cautela enquanto eu ainda permanecia em silêncio.
Eu tentava processar o que havia acabado de escutar.
Ele gostava de mim.
Não.
Ele estava apaixonado por mim.
Completamente.
E quando ouvi ele dizer aquilo eu congelei.
É diferente quando tudo é verbalizado. Porque tudo deixa de ser suposição e vira uma certeza. A realidade muda e você precisa entender ela.
E a realidade onde ele correspondia o meu sentimento era assustadora.
Porque eu não sabia o que dizer. Nem o que fazer.
Mas, de alguma forma, meu coração sim.
Porque um pequeno sorriso se abriu.
E lentamente me aproximei dele.
Estava tão próxima que quase podia ouvir o coração dele bater.
Nossos olhares estão quase colados.
Nossos dedos se entrelaçam sei que diga uma palavra.
Nesse momento eu percebo o óbvio: Eu estava feliz. Estava feliz e apaixonada por ele.
De uma forma que nunca havia estado antes.
Porque ele me mostrou um outro lado do amor.
Um lado que me deixava ser quem eu gostaria de ser.
Como se ele fosse um caminho.
Um caminho que me me mostrou que aquilo era o verdadeiro amor.
Que é corajoso o suficiente para se dizer tudo aquilo.
Que não tem lógica.
E quase como num sussurro, eu pergunto:
“Se a gente fizer isso, não há mais como voltar atrás”.
Seus olhos não transparecem receio. Eram confiantes.
“Eu realmente espero que não”, ele responde.
E ai eu sorrio. E de repente, meus lábios encontram os dele.
Talvez seja clichê e idiota falar isso, mas nunca senti o que veio ali.
Seus braços me envolviam.
E tudo que eu sentia era que estava onde deveria estar.
Me sentia segura.
Naquele beijo eu entendi.
Entendi o amor.
Porque ele me mostrou que alguns tipos de amores a gente só encontra uma vez na vida. E que quando isso acontece, a gente tem que ter coragem.
Depois daquele beijo, recupero o fôlego e o olho mais uma vez.
“Por que eu?” eu pergunto ainda confusa.
Dessa vez, é ele quem sorri. E seus olhos também sorriem junto.
“Porque não seria mais ninguém”, ele responde e me beija de novo.
Eu retribuo e sorrio.
Sorrio de verdade.
No mais simples e absoluto estado de felicidade.
8ª Parte:
Quando cheguei na casa dela, tudo estava apagado. Não havia sinal de que houvesse alguém ali. E de início, pensei que aquele era um sinal. Mas algo dentro de mim não aceitou aquilo. Então, fiz a única coisa que podia fazer: Digitei seu número e esperei que sua voz atendesse do outro lado. Ela não atendeu e eu caí direto na caixa postal. E mesmo assim não me importei.
“Eu vim até a sua casa mas você não estava aqui. Existem algumas coisas que eu venho pensando… E que preciso te dizer. Caso contrário, não acredito que consiga dormir mais. Antes de mais nada preciso te dizer que não sou bom com pessoas. E com sentimentos. Tudo que envolve essas duas coisas sempre me assustou. Porque ninguém nunca conseguiu me entender. E eu tinha medo de ser a aberração da qual ninguém nunca iria gostar. Mas ai… Ai você veio. E eu sempre gostei dos números, da matemática. Porque eles são lógicos. Mesmo a mais difícil equação. Mas você não segue a lógica. O que sinto por você não segue as regras. É tão complexo que me assusta. Porque você parece a equação a qual eu não sei resolver.
Mas pensar assim foi meu maior erro. Nossa equação sempre esteve bem resolvida. Porque nós somos o número perfeito. Porque não importa as variáveis, nós sempre chegaremos ao mesmo resultado.
Você é o número perfeito. E é por isso que estou apaixonado por você.
É por isso que não posso passar mais um dia sem te dizer isso.
Porque essa é a última parte dessa equação da qual eu chamo de amor.
Então… Acho que é isso.
Não tenho ideia de onde você esteja
e sei que é errado dizer isso por aqui.
Mas a única coisa que faz sentido agora é você.E essa é a verdade: Estou apaixonado por você. Completamente.
Sou louco por você.
Me sinto bem quando digo em voz alta.
E agora eu vejo que isso é tudo do que preciso.”
Eu me lembro de desligar e pensar que não fosse tarde demais.
Mas ai eu me viro quando e meu peito congela.
Porque, de alguma forma, aquele perfeito número estava ali.
7ª Parte:
Passei semanas evitando-a. Comecei a sair com outra garota. Era uma garota divertida e não havia nada de errado com ela. Mas algo não funcionava. Algo dentro de mim não sentia como se aquela situação fosse correta. E havia outra questão que não dava para negar. Ainda havia outra pessoa em minha mente. Eu ainda não havia esquecido dela. Porque parecia que ela estava em todos os locais que eu olhava. Era torturante.
Então, hoje eu decidi terminar tudo com essa outra garota. Acho que não era justo com ela. Nem comigo.
Ela levou numa boa. Mas até ela conseguiu perceber que a única razão de não darmos certos era porque eu gostava de outra.
E ela sabia quem era.
“Se eu fosse você, eu a deixaria saber”, ela disse isso e me deu um abraço confortador.
E aquilo ficou na minha mente. Porque afinal, eu queria aquilo.
Eu queria dizer para ela que eu estava gostando dela durante todo aquele tempo.
E depois de tanto tempo evitando-a, naquela manhã resolvi voltar a sentar ao seu lado. Foi um pouco estranho no início.
Porque evitamos nos falar e nos olhar.
Parecíamos estranhos. Parecia que tudo havia sumido entre nós.
Até que finalmente ela falou. O som da sua voz fez tudo voltar ao lugar.
E ai a gente se olhou brevemente. E aqueles olhos… Foi por isso que eu tive a certeza.
Foi naquele olhar que eu vi que não precisava de palavras pra saber que ela também sentia o mesmo.
Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o sinal tocou e ela saiu rapidamente.
Então eu passei o dia pensando naquele olhar.
Pensando nela.
Pensando no quanto eu queria aquilo.
Voltei para casa caminhando enquanto olhava o céu e pensava nela.
Já era noite quando eu finalmente havia chegado em casa.
Mas não consegui entrar. Eu decidi que não poderia passar mais uma noite sem saber o que aquilo significava.
Sem saber o que nós éramos.
E pensando nisso, dei meia volta e segui rua à fora até a casa dela. Enquanto eu caminhava todos aqueles quilômetros, lembro de sentir.
De sentir em totalidade tudo aquilo que eu neguei sentir.
Foi ali que eu me dei conta.
6ª Parte:
Por que eu não disse a verdade? Por que eu não disse o que sentia por ele quando ele me contou sobre aquela garota? Agora eu sinto que botei tudo a perder. Já fazem quase três semanas que ele começou a sair com ela. E por causa disso, acabei me afastando dele. E sei que foi imaturo da minha parte. Afinal, eu poderia ter dito tudo que sentia. Mas a indecisão é traiçoeira e me impediu.
Sinto falta dele. Sinto falta do seu jeito aéreo. De poder conversar com ele e sentir que ele me entende. Sinto falta até da risada esquisita dele. Mas agora parece haver uma distância muito grande nos separando. Gostaria de ser madura o suficiente para dizer que estou feliz por ele estar com alguém que aparentemente faz ele feliz.
Mas não sou madura.
E muito menos estou feliz por saber que alguém faz ele sorrir. Era pra ser eu. Então por que?
Tudo que sinto agora é um estúpido vazio.
Que foi causado por mim mesma.
Quero fechar os olhos e quero que isso seja um maldito pesadelo. Pela primeira vez, dói.
Dói de verdade.
Eu não sabia que doía tanto gostar de alguém.
Eu não sabia que doía tanto perder algo que eu nunca tive.
Mas parece que essas lições somente tem sentido quando aprendemos o que vem com a dor.
Eu realmente espero que sim.
Então, eu espero que o tempo passe.
Que o semestre termine.
Para que eu nunca mais tenha que sair de casa.
E para que eu finalmente possa esquecer aquele segundo.
O segundo em que estraguei tudo ao não dizer nada.
Antes de dormir fecho os olhos e algumas pequenas lágrimas surgem. Que bobo é chorar por ele. Que bobo é esperar que ele possa me confortar agora. Porque eu o afastei. Isso fui eu.
E eu adormeço com a lembrança mais difícil que existe.
Porque nenhum segundo é tão longo quanto aquele em que você percebe que seu coração acabou de ser partido.
5ª Parte:
Quando ela me contou que seu ex ainda gostava dela, eu percebi que qualquer pensamento envolvendo nós dois seria um equívoco. Era utópico. Porque se ela ficou sentida com aquele fato era porque ainda havia algo entre eles. Havia sentimento. E o que eu seria no meio daquilo? Eu era apenas o nerd que olhava tudo de fora e esperava que talvez nós tivéssemos uma chance. E agora eu vejo que pensar assim era idiotice.
Me deixei levar pelas emoções e é por isso que eu não gosto dessas emoções. Porque elas me nublam a realidade das coisas. Elas me confundem. É por isso que gosto dos números. Das exatidões e das probabilidades das equações. Porque eu posso controlar aquilo. Mas as pessoas não. Pessoas são complexas demais.
E são imprevisíveis.
Por isso sempre foi tão difícil interagir com as pessoas. Porque eu não sou como os outros. Eu sou algum tipo de aberração que é incapaz de fazer alguém se apaixonar por mim. E pensar que eu poderia ser diferente era estupidez.
Ontem uma garota da minha classe de história da arte me chamou para um encontro. Eu não aceitei de imediato. Antes eu queria saber o que a garota pela qual eu estava realmente apaixonado pensaria. E sabe o que ela disse? Ela disse que ficou feliz por mim. Que eu merecia alguém legal. E claro, aquilo doeu de uma forma que nunca doeu antes.
Porque nenhuma dor é tão fulminante como a dor de se enganar sobre algo. Ou sobre alguém.
Então, eu baixei os olhos e fui para casa. E agora estou aqui. Deitado, encarando o teto enquanto imagino o que ela está fazendo. Em quem ela está pensando.
Certamente, não em mim.
Porque eu sou o que sou.
Eu sou o cara que ela nunca verá com outros olhos.
Eu sou o garoto que olha a vida passar ao longe.
Eu sou o cara que nunca vai dizer que está apaixonado por ela.
Mas talvez o amor não seja para mim, afinal. E saber disso não torna as coisas mais fáceis.
Porque mesmo assim eu não consigo parar de gostar de quem não sente o mesmo por mim.
4ª Parte:
Eu me sentia um pouco mal por fazer ele matar aula comigo na piscina. Ele não era daquele tipo. Era sempre tão certinho. E isso era, de certa forma, fofo. Eu sabia que ele só estava fazendo aquilo porque eu precisava de um ombro amigo. A última semana foi especialmente difícil depois da revelação de que aparentemente meu ex-namorado ainda tinha sentimentos por mim. Aquilo me balançou. E dava pra perceber que por algum motivo, aquela era uma conversa desconfortável para ele. Mesmo assim ele não inventava desculpas para estar comigo e me apoiar. Acho que aquela foi a maior prova de amizade que ele poderia me dar. Ele era um garoto incrível, daquilo eu já não tinha mais dúvidas.
E aparentemente todos no colégio já sabiam daquilo. O fato dele andar comigo o tornou um novo alvo. Ele era o novo troféu da escola, onde algumas garotas disputavam a sua companhia. E ele não parecia ligar muito para aquilo.
Então, ficamos ali calados por um tempo. Com as pernas enfiadas na piscina aquecida e dividindo um fone de ouvido que tocava sem parar um CD antigo do Oasis. O silêncio dele era confortador. No meio das confusões que me atormentavam, ele me dava essa paz. A paz que eu precisava. E quando me dei conta disso, algo em mim mudou.
Um conflito se instalou.
Eu o olhei e vi os lindos olhos azuis refletindo as pequenas ondas que ele fazia com pé.
Ali, meu peito estremeceu. E eu me senti estranha.
E como se tivesse notado, ele me encara e pergunta:
-Tudo bem?
O encaro por um breve segundo e espero que aquele pensamento se dissipe.
O que não ocorre.
Disfarço com um sorriso e faço um aceno sutil com a cabeça.
Pensei que eu poderia estar enganada, que eu só poderia estar confundindo as coisas.
E mesmo que eu não estivesse, nada me garantiria de que ele sentia o mesmo.
E novamente, com a simples menção da ideia, meu peito estremece mais uma vez.
Fecho os olhos e trato de apagar aquela ideia.
Um dos grandes erros que podemos cometer é dizer que não sentimos algo quando claramente sentimos.
E no que dizia respeito a ele, tudo estava claro: Eu sentia algo por ele.
Eu sentia.
E errando mais uma vez, eu escolho não deixar ele saber.
3ª Parte:
Quando o verão terminou e aulas voltaram, eu não esperava que ela fosse continuar a andar comigo do jeito que fizemos por todo verão. Quer dizer, eu era apenas um nerd que lia quadrinhos escondido no laboratório. E ela era… Bem, ela era ela. Mas a surpresa foi a melhor parte disso tudo. Ela não mudou seu jeito comigo. Nos horários que tínhamos aulas juntos, ela se sentava ao meu lado e quase sempre fazíamos duplas juntos. E esse pequeno detalhe me despertou para o resto das pessoas. Eu não era mais o nerd invisível. De repente eu era “alguém”. Era o cara que andava com ela para cima e para baixo. Estávamos em todos os lugares.
E as pessoas notavam isso mas eu não me importava. Eu gostava mesmo era de estar com ela.
Ela me fazia rir das minhas próprias piadas sem graça. O som da risada dela me causava isso de alguma forma. E depois de um tempo eu parei de medir as minhas palavras perto dela. Eu não tinha mais receio de soar idiota perto dela. Eu não tinha receio de ser eu mesmo.
Do lado dela eu ficava confortável. E esse era o problema. Porque eu não sentia isso com mais ninguém. E eu não sabia lidar com essas novas emoções. Porque elas me engoliam. E eu não podia deixar que elas me consumissem porque, sendo sincero, havia um limite que eu não poderia ultrapassar. Bastava me olhar no espelho.
Ela era ela.
Eu era eu.
Aquela era um tipo de barreira intransponível.
Porque não havia chance de que aquilo ali fosse algo a mais.
Mesmo que, lá no fundo, eu soubesse que queria aquilo.
E talvez eu não precisasse ir tão afundo para perceber aquilo.
Mas às vezes a gente aceita o que nos é oferecido. Joga com as cartas que tem. Mesmo quando elas não soam tão atrativas assim.
Mesmo quando queremos muito mais.
Se eu só pudesse ser seu amigo, por mim tudo bem.
Eu só não sabia que aquilo não seria suficiente por muito tempo.
Ainda.
Porque algumas emoções são impossíveis de serem controladas.
2ª Parte:
O ato de terminar um namoro com o garoto mais popular do colégio sempre virá com efeitos colaterais. E um deles é se tornar invisível. Porque subitamente as pessoas passam a te ignorar como se você não existisse mais. No início aquilo me aborreceu mais do que eu gostaria de admitir. Mas tudo tem seu lado bom. Daquele dia em diante eu poderia ser eu de verdade. O verão chegou e eu finalmente pude fazer todas as coisas as quais eu reprimia por me importar com a opinião alheia. Mudei o cabelo, mudei as roupas e mudei a mim mesma. Afinal, eu estava invisível.
Ou eu pensei que sim.
Mas ele me mostrou que eu estava errada. No dia em que visitei aquela biblioteca pela primeira vez não imaginava que faria daquilo um hábito. Fui até ali procurando respostas para perguntas que eu desconhecia.
Foi quando eu o notei pela primeira vez. Era magro e usava óculos redondos que pareciam esconder algo. Seu jeito recluso me chamou atenção. De alguma forma, ele era convidativo. Um dia, fui surpreendida quando ele falou comigo. A voz era calma. Sua presença era calma. Mas o jeito que me olhava era a melhor parte. Como se visse através de mim. Lembro que gostei daquilo.
Depois desse dia voltei lá quase que religiosamente. Passamos a conversar mais. Ele me indicava livros incríveis, me contava piadas inteligentes e ele me via.
E eu soube disso no dia em que ele me chamou para jantar. Ele parecia nervoso, enquanto falava com as mãos nos bolsos. O que deixava-o ainda mais fofo.
Naquele dia ele estava sem óculos. E pela primeira vez eu vi em sua totalidade os lindos olhos azuis que ele escondia ali atrás. Olhos perspicazes, que pareciam um mar profundo que me convidava. Olhos que me viam pelo que eu era e que não me deixavam desconfortáveis ao vê-los. Queria morar neles.
Sentada no chão com um livro nas mãos e olhando para ele, sorri porque eu estava certa: Os livros mostram o caminho, mas só se pode caminhar no mundo real. Eu precisava viver.
E enquanto saímos olhei-o mais uma vez. E sorri de novo.
Porque eu nunca acreditei era possível gostar de alguém à primeira vista. Mas aquilo era diferente. Ele era diferente.